Eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Pois isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando numa porção de coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis que precisam ser ditas, não faça essa cara de espanto, elas são realmente terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, se você teria, não sei, disponibilidade suficiente para ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouví-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e, se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?
Endossimbiose
As aventuras do meu alter ego.
domingo, 2 de julho de 2023
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
UM CONSULTOR HINODE NO RIO
Capitulo 1 —
Líder Master
Tempos
atrás, antes de estar aqui onde estou agora eu era um líder máster hinode que
havia acabado de chegar na rodoviária de Niterói, não era minha primeira vez no
Rio de Janeiro, mas estar no Rio é sempre a primeira vez. O plano era encontrar
uma favela e vender hinode. Eu queria ser o maior vendedor de hinode do Brasil,
queria ser líder imperial two diamantes.
Peguei um
taxi e fui direto para o morro do estado, chegando lá já fui parado por dois
seguranças do beco que começaram a gritar perguntando o que eu tinha na mochila,
eu com as mãos na cabeça dizia —pô, relaxa ai cara, eu sou só um consultor
hinode— os caras talvez nem sabiam o que era hinode e como hinode transformava
a vida das pessoas, mas a jornada da ignorância é perdoada aos ignorantes, aos
conhecedores da verdade cabe levar a luz (uma frase que ouvi do meu mentor
hinode em uma palestra em Mogi das Cruzes). Os caras então me levaram até o
dono do morro. Eu expliquei numa boa, disse que meu nome era Renato e que eu era
consultor hinode. Comecei a explicar para eles as vantagens de ser um consultor
hinode, que um lider imperial diamante ganhava R$ 60 mil por mês, uma land
rover evoquer e uma viagem para a Europa. Os traficantes começaram a rir da
minha cara, e eu só conseguia sentir ódio. Sabia que não devia sentir ódio dos
ignorantes, mas era tão difícil controlar meus sentimentos naquela época. Quem
me conheceu antes do budismo sabe disso, mas eu não aguentava mais as pessoas
desacreditando das coisas que eu era capaz de fazer. Então eu fiz o que pude, eu
peguei aquele ódio todo e transformei em combustível para os meus objetivos.
Assim, respirando
fundo e focando nos meus objetivos eu consegui autorização do dono do morro para
apresentar hinode para a favela.
Os
traficantes me indicaram um barraco perto do escadão que estava alugando um
quarto, era um lugar caindo aos pedaços, eu até quis ir embora, mas lembrei das
palavras do meu mentor na palestra dizendo que dormia na rua antes de se tornar
líder platina. Eu pelo menos tinha uma cama para dormir, respirei fundo outra vez
e comecei a me preparar para o dia seguinte.
Como
comentei antes, nessa época eu era budista (por conta da forte influência asiática
na minha cidade natal acabei me convertendo). Eu sabia que existia um deus
dentro de mim e eu estava em uma jornada para exterioriza-lo. Acendi minhas
velas aromáticas, meus incensos de bons presságios e comecei minha meditação de
ocaso.
No dia
seguinte, antes mesmo do sol nascer eu já estava de pé, comi uma beterraba de
café da manhã e tomei um suco de couve. Coloquei meus catálogos na mochila,
peguei as amostras grátis e alguns cremes rejuvenescedores e óleos corporais que
eu tinha para pronta entrega, coloquei tudo na mochila e sai.
A idéia era
começar as abordagens no pé do morro e ir subindo aos poucos. Quando eu
chegasse no topo eu —se o meu divino interior permitisse— chegaria ao último
patamar de liderança hinode, o tão esperado posto de líder two diamantes.
Dei uma última
ajeitada no cabelo enquanto descia os degraus do escadão, limpei a lente dos
meus óculos e por fim estava no pé do morro. O coração disparado, suor pingando
na testa, mas eu estava ali agora e precisava escalar a montanha do meu
sucesso. Eu não iria desistir, afinal soldado que vai pra guerra e tem medo de
morrer é covarde.
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